A secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty, embaixadora Gisela Padovan, classificou como lamentável, nesta 5ª feira (2.abr.2025), o vazamento de um possível ataque hacker e operação de espionagem do Brasil contra autoridades do Paraguai. Em entrevistas com jornalistas para falar sobre a cúpula da Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), que será na próxima semana, ela afirmou haver coisas que são feitas, mas que não devem ser publicadas.
Padovan repetiu que as informações de conhecimento do Itamaraty são as mesmas da nota publicada pelo Palácio do Planalto mais cedo esta semana, de que a operação esteve em curso durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) e foi interrompida no começo do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“Houve um programa iniciado no ano passado, e encerrado nesse governo. E realmente não nos passaria pela cabeça espionar um país amigo. Mas eu acho que as instituições envolvidas estão fazendo seus processos internos de averiguação, inclusive do lamentável vazamento à imprensa, que não deveria ter ocorrido, porque há coisas que são feitas, mas que não são para serem publicadas por razões óbvias”, afirmou.
Segundo ela, a diplomacia brasileira deve ter novas informações nos próximos dias, mas que processos de investigação e afins não deveriam estar na imprensa. O Itamaraty, conforme a embaixadora, trabalha com as autoridades paraguaias para que esse fato não atrapalhe a relação com o país vizinho.
“Processos de investigação, etc, não deveriam estar na imprensa. Mas nós trabalhamos, por enquanto, com essa informação que nos foi fornecida, de que era um processo iniciado no governo anterior, e que foi interrompido, exatamente quando, esses detalhes que estão sendo estudados. Mas o Itamaraty não tem absolutamente nada a ver com isso, e nós estamos trabalhando com as nossas contrapartes paraguaias, para que isso não empane uma relação que é tão vigorosa tão boa, tão densa, tão histórica, como a nossa relação com o Paraguai”, declarou.
Entenda
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou na 2ª feira (31.mar.2025) com o chanceler do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, sobre o possível ataque hacker organizado pela Abin (Agência Brasileira de Inteligência) a autoridades paraguaias.
Depois do diálogo direto de Vieira com Lezcano, o Paraguai publicou a 1ª nota do país sobre o tema. Nesse texto, o governo paraguaio dizia não ter provas de ataque hacker brasileiro.
Na 3ª feira (1º.abr), entretanto, o chanceler do país vizinho fez um comunicado à imprensa em que informou que o país suspendeu as negociações com o Brasil sobre o chamado Anexo C da Itaipu Binacional até que o governo brasileiro explique o possível ataque.
Do lado do Itamaraty, a avaliação é de que os fatos já foram apresentados de forma clara, mas serão explicados novamente conforme for solicitado pelo Paraguai.
O chanceler paraguaio também convocou para consultas imediatas o embaixador do Paraguai no Brasil, Juan Ángel Delgadillo. Lezcano conversou com o embaixador do Brasil em Assunção, José Antonio Marcondes, para que ele detalhe a suposta ação de inteligência do Brasil contra o Paraguai.
De acordo com o UOL, a agência teria espionado computadores de autoridades do governo paraguaio para obter informações relevantes para a negociação de tarifas de energia elétrica produzida pela usina de Itaipu.
A reportagem diz que o planejamento da operação começou no fim da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas foi executada já no governo Lula.
Na 2ª feira (31.mar), o governo Lula negou envolvimento com o possível ataque hacker. “O governo do presidente Lula desmente categoricamente qualquer envolvimento em ação de inteligência, noticiada hoje, contra o Paraguai, país membro do Mercosul com o qual o Brasil mantém relações históricas e uma estreita parceria. A citada operação foi autorizada pelo governo anterior, em junho de 2022, e tornada sem efeito pelo diretor interino da Abin em 27 de março de 2023, tão logo a atual gestão tomou conhecimento do fato”, escreveu em nota.
Leia o que diz a reportagem do UOL:
- sob o governo de Lula, a Abin teria realizado um ataque hacker contra a cúpula do governo paraguaio;
- o objetivo da operação de espionagem seria obter informações relevantes para a negociação de tarifa de energia elétrica produzida pela usina hidrelétrica de Itaipu, cuja gestão é dividida pelos países;
- os relatos teriam sido feitos à Polícia Federal durante investigação de mau uso da agência durante a gestão de Bolsonaro;
- os ataques hackers não teriam saído do Brasil, mas os agentes brasileiros teriam atuado no Chile e no Panamá;
- dentre os alvos espionados estariam o Senado paraguaio, Câmara e a Presidência da República daquele país;
- segundo a reportagem, a operação foi autorizada durante o governo Bolsonaro, mas o atual diretor-geral da agência saberia o fato e teria comemorado a iniciativa.
“O atual diretor-geral da Abin encontrava-se, naquele momento, em processo de aprovação de seu nome no Senado Federal, e somente assumiu o cargo em 29 de maio de 2023”, segue a nota.
Apesar de não negar que houve a operação, o posicionamento oficial do Planalto tenta isentar a administração Lula do fato. O texto da reportagem, entretanto, contradiz essa versão.
Em 7 de maio, os governos do Brasil e do Paraguai fecharam, em Assunção, um acordo para definir as tarifas da usina de Itaipu para os próximos 3 anos.
O lado brasileiro concordou com um reajuste menor do que pediam os paraguaios, mas criou um mecanismo para, na prática, manter o custo atual ao consumidor brasileiro. Para isso, acordou contrapartidas com o país vizinho.
O presidente do Paraguai defendia um aumento da tarifa dos atuais US$ 16,71/kW para pouco mais de US$ 22,70. Depois, propôs US$ 20,75. O Brasil, que queria reduzir ou pelo menos manter a tarifa atual, topou fixá-la em US$ 19,28 até 2026.
O valor extra que será recebido pela parte da margem brasileira será revertido para modicidade tarifária e abaterá o valor extra. Com isso, o governo assegurou que o aumento será zero para os consumidores brasileiros.